Do Olhar do Artista…

Oscar Wilde disse que não existia neblina em Londres antes de James Whistler a retratar. Era sua forma de dizer que as pessoas às vezes precisam da arte lhes dizendo para onde olhar. Então o comum se torna especial e passa fazer parte da identidade de um lugar. Ou de uma pessoa.

Vivemos a era das virtualizações, das mudanças constantes e velozes nas potencialidades, que superestimam a espontaneidade e a superficialidade estética dos discursos e das aparências, não sobrando tempo, paciência e curiosidade para uma apreciação mais demorada dos detalhes de uma obra, de um aspecto da natureza, das linhas arquitetônicas daquele velho prédio, ou das linhas que se formam num sorriso tímido de uma jovem musa.

E geralmente buscamos suprir essa falta de tempo com registros, fotografando tudo o que for importante. “Na foto…”, prometemos, “…olharemos com mais atenção”.

Todos buscamos ser conhecidos, não através de generalizações superficiais e apressadas, mas com profundidade e apego aos detalhes, tendo nossa singularidade reconhecida. Mas nem sempre fazemos isso. Nem sempre temos esse olhar complacente para com o outro.

Eu mesmo, em minha cegueira mental, demoro muito para compreender alguns aspectos das pessoas. Levo anos para reparar na cor dos olhos de alguém. Me prendo aos detalhes mais materiais: formato do óculos, cor do cabelo, desenho da tatuagem. É minha forma, talvez como artista, de perceber o todo através de uma iconização das partes. Com isso, crio uma versão em cartoon, na minha mente, de cada um com quem convivo. Quase como uma caricatura. A versão mais “real” leva tempo, precisa de mais estudo, mais observação.

Mais dedicação.

Penso que todo artista tem um pouco disso, pois a arte evoca uma certa paciência, que nada mais é do que a capacidade de agir sem arrebatamento, de adiar uma satisfação e apreciar o que outros considerariam tedioso, como ver a refração da luz do sol num prisma, os movimentos das ondas na praia, os gestos que a moça faz com as mãos, dançando-as no ar, quando tenta explicar algo que ainda não tinha pensado na resposta. Ou estudar por horas o mesmo retrato antes de reproduzi-lo. O artista sabe que coisas boas são feitas devagar e com ingredientes simples.

Diziam que paciência era uma virtude, mas hoje em dia tem gente que a vê, erradamente, como sinônimo de apatia. Mas não! Ter paciência é, por exemplo, renunciar a satisfação de ganhar uma discussão, pois a pessoa que é paciente, tem também curiosidade, que por sua vez, é a ignorância levada a sério. É aquela segura ingenuidade, um tanto infantil, de reconhecer que não sabe de tudo, mas quer aprender. Como a criança que pergunta “por que?” para quase tudo. Ou que no silêncio, e essa é a minha praia, apenas acompanha com o olhar, absorvendo a cena, como um cientista empírico, formulando uma tese ou revelando um segredo do universo.

A arte convida a todos a experimentarem esse olhar, mas infelizmente o julgamento das pessoas é apressado demais. “Não entendi”, uns dizem diante do abstrato, ou “quem é essa?” diante do retrato. Eles focam apenas no produto final da arte, não se questionam quanto ao processo, quanto à inspiração, ou ao sentimento envolvido. Ou ainda, na exposição, não se perguntam o porquê de tal disposição das obras. Será que há uma composição no ambiente também?

E assim generalizam também uns aos outros.

Há em cada obra minha um porquê. Um recado. Uma pista que se soma com o texto no blog, com a foto de outra obra no Instagram… Tudo faz parte de uma grande e lenta coleção só. Todas têm, de certa forma, meu espírito e o meu afeto.

Amor é a dedicação posta em cada pincelada, em cada passo dado para trás, ao se afastar da tela, para buscar uma nova percepção, um novo ângulo, um novo olhar. É querer vê-la como o olhar do outro, quando o artista quer ser também público, pois deseja admirar a criação como se fosse feita por outro. É reconhecer que na imperfeição técnica da obra se oculta um ideal muito mais elevado de perfeição.

O amor do artista revela a beleza mesmo em quem discorda dele. Faz despertar a curiosidade de outros, que com um novo olhar, mais demorado, mais paciente, também redescobrem o ideal de Belo ao redor, no mundo, nas pessoas…

E como um James Whistler, imortalizando as neblinas de Londres, mostrando que sobre elas seu olhar não é comum.

É com afeto.

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