Sobre a Crítica da Arte

Desde que foi noticiada a reforma no ensino, pelo governo federal, tenho percebido algumas manifestações de opiniões contrárias e a favor. Nas favoráveis há sempre o argumento de que algumas disciplinas são desnecessárias e até inúteis, entre essas a de artes. O que levantava outras questões como: o que é arte? O que é arte boa? E ruim? Qual a utilidade da arte?

Até recentemente vi um vídeo de um sujeito criticando a arte contemporânea, alegando a falta de sentido dela, e ainda fazendo umas associações muito estranhas da arte contemporânea com o marxismo, do tipo, se um sujeito expõe um quadro pintado com fezes ele é de esquerda! (What a fuck?) Não é o liberalismo do capitalismo que sempre motivou as expressões individualistas? E apensar de puxar um pouco a história da arte, ele ignora que a arte moderna foi uma crítica à classe burguesa da época, uma forma de desconstruir os valores tradicionais, e o carinha esquece também que foi o capitalismo, que ironicamente, se apoderou da arte moderna tornando-a burguesa. E o cara vem dizer que é coisa de esquerdista… fala sério! Antes disso ele confunde arte moderna com arte contemporânea, já começa errado por aí.

Então, para não ficar só no campo da opinião, comecei a estudar algumas definições do que é arte. Essa postagem é sobre algumas que eu encontrei, a primeira num livro do Umberto Eco, chamado A Definição da Arte.

Eco apresenta a teoria da estética da formatividade e o conceito de interpretação, de Luigi Pareyson (filósofo italiano, 1918 – 1991), que pensa a arte como FORMA, entendendo por forma um organismo, físico, autônomo, regido por leis próprias. Para esse pensador, toda atividade humana é produção de formas, cabendo à sua investigação diferenciar a formação de obras de arte de qualquer outro tipo de formação.

O artista, que é o formador, aquele que trabalha a forma, é chamado por Pareyson de ESTILO, o modo de formar, acreditando que a obra revela o artista.

A matéria em que o artista trabalha se opõe ao artista como obstáculo, que em sua capacidade inventiva os supera e sua inventividade estabelece novas leis da obra. Mas essa ação inventiva do artista está relacionada de certa forma com as próprias leis da forma, que trazem consigo potencialmente as soluções descobertas pelo artista. Ou seja, a obra guia o artista pela matéria, num dos possíveis caminhos, para que a obra em si se revele. É o artista quem capta e torna pessoal esse caminho, seu modo, seu estilo.

Na interpretação de uma obra, segue-se um caminho parecido, a obra em si é a matéria que o observador trabalha intelectualmente. A obra traz diversas possibilidades de interpretação e cada um ao seu modo de se relacionar com a obra de arte.

A estética tradicional é normativa, determinando o que é belo a partir de um conceito esquematizado de beleza. O que obriga a reconhecer o belo somente onde o esquema se aplica. A estética contemporânea é o contrário disso, ela se livra das regras e aceita a subjetividade do indivíduo como o participante ativo na construção de sentido. Toda a experiência humana, seus sentimentos, gostos, desejos e uma variedade enorme de bagagens culturais, não podem simplesmente ser colocadas em um esquema de normas de “isso serve” e “isso não serve”.

E esse é um ponto onde percebe-se o tamanho da asneira dito pelo cara do vídeo, que fica o tempo todo tentando resgatar valores de um período que não se aplicam mais. Uma total falta de conhecimento da história do pensamento.

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Na obra pronta, temos o fim de um processo de formação e o início do processo de interpretação. Contemplar uma obra é o que se faz após a interpretação dela e interpretar é acolher o ponto de vista do artista e percorrer seus processo de criação. Compreender a obra é possuir o seu criador. É um diálogo entre artista e observador, mediado pela obra.

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Definir arte é uma missão árdua e um tanto insatisfatória, pois dificilmente quem estuda vai encontrar apenas uma definição que agrade. Por exemplo, para Hegel a arte tem a ver com a sua ideia de espírito humano, é o meio pelo qual o homem se separa da natureza, e como para ele o espírito é superior à natureza, a beleza da arte é superior à natureza. Ele pensa a arte como um conteúdo em busca de forma, um interior que quer se exteriorizar.

Nietzsche coloca a arte entre duas forças de sua teoria: Apolo e Dionísio, sendo a primeira relacionada “à medida, à individualidade e à consciência” e a segunda “à embriaguez, ao descomedimento e à reconciliação do homem com a natureza”. Assim, ao contrário de Hegel, a arte não é algo acima da natureza, nem uma imitação dela como pensava Platão, nem uma expressão individual do artista, como pensava Delacroix, mas uma “identificação primária” do artista com a natureza. (Lucésia Pereira, 2011, em História da Arte, Unisul).

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Observar a arte sempre será uma experiência individual, subjetiva, e ao mesmo tempo ligada ao meio cultural em que cada um está inserido. Essa subjetividade não pode ser critério de avaliação da arte, quando se busca um conceito objetivo, geral para o valor de uma obra. A avaliação deve ser objetiva, com critérios aceitos por todos. Mas cada grupo social tem os seus.

É dentro de espaços culturais, em cada sociedade, que se determinam os valores e critérios de avaliação de obras. Chega a ser patético, um sujeito que não participa do meio, querer impor seu gosto pessoal como um dogma. Antes disso ele deveria fazer parte de alguns dos grupos sugeridos por Ivan Gaskell (em a História das Imagens), são eles: os negociantes de arte, os leiloeiros e os colecionadores, depois os diretores de museus e galerias públicas e por último os historiadores da arte, acadêmicos, editores e críticos.

Bom, então, resumindo de forma bem básica, temos dois caminhos para avaliação de uma obra, dois espaços para criarmos critérios de avaliação: o da forma, que enxerga os meios materiais, os processos plásticos, linhas, texturas, cores etc. E o do social, que lida com contextos históricos e culturais.

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Faltou, ao carinha lá do vídeo, compreender que a contemporaneidade, ou pós-modernidade, é vista como uma continuação da modernidade, onde se afirmaram os pensamentos de desconstrução de valores, na filosofia o bom exemplo é Nietzsche, na arte temos toda a arte moderna, Picasso por exemplo, que começou com uma arte mais tradicional e a desconstruiu, sendo um dos criadores do cubismo. Hoje os valores são mais dinâmicos, mais temporários, a obra já não é feita para durar, mas possui uma relação de momento, de instante.

Mas gosto de lembrar de uma definição de arte bem básica do filósofo brasileiro, Mário Sérgio Cortella, que disse algo como: arte é o que você leva para casa depois de uma visita numa galeria ou num museu.

Se você não levou aquela instalação plástico visual pós-moderna consigo, tudo bem que ela não seja arte para você, mas não empurre seus critérios e valores para os outros como parte de uma verdade dogmática, onde o valor da arte é mais um critério de segmentação, de elitização e de preconceito.

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Bom, isso é só um rascunho para um artigo.

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