Imaturidade Política

Talvez eu exagere na interpretação dos sentidos das palavras, mas quando vejo pessoas usando termos como “esperança” e “acreditar” para comentar questões políticas, eu não consigo deixar de colocá-las, categoricamente falando, no mesmo nível de crianças que acreditam em Papai Noel. Pois entendo esses termos como pertencentes ao campo religioso.

Esperança é um sinônimo de fé, é o sentimento de acreditar que é possível a realização de um desejo. Acreditar significa dar crédito, também é sinônimo de fé, é fazer um empréstimo, é considerar como verdade algo que lhe foi adiantado, é um ter agora algo que só seria seu no futuro. Ter fé é acreditar de forma que não lhe reste dúvida. É saber sem ver. É ver sem saber.

Penso que nossa formação religiosa atrapalha nosso real entendimento da política. Passamos a interpretar os fatos baseados num achismo cego e nada prático. E como é típico dos discursos religiosos serem impregnados por uma estética que se confunde com a moral, confundimos também nossos julgamentos, preferindo o gosto subjetivo imposto por um coletivo e abrimos mão de uma racionalização mais objetiva e pragmática das coisas.

Racionalizar digo no sentido de fazer uma real dialética, chocar ideias contrárias até encontrar um fator em comum.

Mas a estética religiosa, não permite esse diálogo, pois ela em sua simplista dicotomia bem x mal, certo x errado, preto x branco, não permite espaço para tons de cinza. Dialogar assim, dentro do discurso religioso, é negar a certeza absoluta da fé. E não pode haver dúvidas no entendimento do fiel. Porém negar essas dicotomias seria um dos primeiros passos para uma liberdade intelectual.

Bom, eu sei que o uso das palavras tem seu jogos. Sentidos variam ali e lá, dependendo de contextos que podem ser culturais, mas isso não me impede de refletir sobre a influência dos elementos da crença nos discursos políticos e nas opiniões geradas por eles. Tudo isso me faz pensar no grau de imaturidade que temos ao olhar para fatos e interpretá-los em termos de salvadores, heróis, mitos, esperanças, crenças como adversárias, inimigos a serem derrotados, coisas que parecem ser retiradas de um roteiro do He-Man. O que aconteceu com Aristóteles, Rousseau, Locke, Hobbes, Marx, Bakunin, Rawls…?

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