Poder, Gestão e Peão de CorelDraw…

Pensei em escrever algo sobre o quanto é ruim para quem trabalha com design gráfico não ter seu conhecimento e sua experiência reconhecidos profissionalmente e sobre o quanto essa falta de reconhecimento reduz o sujeito à condição de um mero instrumento. Peão de CorelDRAW. Mas então me dei conta do absurdo que estava fazendo. Isso não é algo exclusivo de quem trabalha com design. É um problema muito mais geral.

Trata-se de um exemplo bem prático do pensamento do filósofo Michel Foucault sobre relações de poder. Pequenas relações de poder.

Poder não se trata exclusivamente de ações repressivas, mas tem sim a ver com gestão. E a gestão exercida é sempre sobre o corpo do outro. Você pode até pensar que existem influenciadores que fazem lavagem cerebral em massas de manobras, mas isso por si só não é necessariamente poder.

O poder só se concretiza quando o corpo do outro é impelido a realizar algo. Quando dizem como você deve se vestir, por exemplo.

E também só é poder se há uma força contrária, fazendo oposição. As pessoas de outras religiões que não se vestem como você, por exemplo.

Se há consenso de todas as partes, então não é poder. Que poder teria sobre mim, alguém que me obriga a fazer algo que eu já desejo fazer?

Fazer gestão é coletar dados, informações, e assim, exercer poder é gerar saberes, é colocar o gestor num nível de Sujeito Consciente. A gestão sobre os corpos separa sujeito de objeto, assim como no indivíduo a consciência separa Ser e Nada, numa ótica existencialista.

Dentro de sistemas de produção em massa, como é o capitalista, a razão de ser do gestor é transformar corpos em instrumentos. Tornar o homem num objeto. Ferramenta de trabalho.

A missão desse tipo de poder é reduzir cada vez mais a permissão para que o outro seja sujeito, reduzindo suas liberdades individuais e tornando-o cada vez mais útil (valor fora de si) e cada vez menos inútil (valor em si mesmo).

O discurso estético se encarrega de inverter os valores semânticos: o indivíduo vira egoísta; o inútil vira malandro, vadio etc; e o trabalho (tripalium) passa a dignificar o homem, mesmo tendo sua origem relacionada ao castigo e à tortura.

Ao mesmo tempo em que o poder reduz o indivíduo a objeto, ele o conjuntifica (existe essa palavra? heheh) numa massa categórica, uniformizada e hierarquizada, pois faz parte de toda gestão uma certa arquitetura da informação.

Controlar corpos diz respeito também à distribuição espacial. O lugar de cada um, sua sala e sua mesa dentro do escritório, a porta de acesso dos funcionários, elevadores separados…

Foucault diz que um poder só se mantém porque produz discursos que geram prazer e porque forma saberes. Eu entendo esse prazer como algo que alimenta o corpo e não a consciência, mas longe de eu querer bater na tecla da pobre dicotomia platonista de corpo x alma.

Nem todo saber é limitado aos que exercem poder. Nos saberes gerais cada sistema estabelece seu regime de Verdade. E uma Verdade nada mais é do que um conjunto de regras que separa o que é certo do que é errado.

Buscar, e de certa forma exibir, a consciência de sua individualização, seu auto-reconhecimento como sujeito de seu próprio projeto existencial, parece ser uma afronta ao gestor.

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