Signos

A INTELIGÊNCIA tem sua própria felicidade. Muitas de nossas alegrias são frutos de reações estéticas, prazeres do corpo, dos sentidos, mas a razão também tem seus momentos de fruição. Esses podem ser através da memória: a lembrança de uma sensação do corpo; ou então podem ser através do Aprendizado.

Aprender é, basicamente, adquirir um conhecimento novo. É ter por revelado os segredos de algum objeto do mundo, ou de alguém, ou de alguma ideia, conceito. Trata-se de um processo de leitura de símbolos, de signos: gestos, ideias, ações, qualquer coisa que carregue um significado. Como escreveu Gilles Deleuze “alguém só se torna marceneiro tornando-se sensível aos signos da madeira”.

Signos podem ser formadores de mundos específicos, pertencendo a uma determinada cultura, como por exemplo jargões técnicos usados por alguns profissionais. Ou os signos podem ser compartilhados por mundos diversos, quando os mesmos objetos são interpretados de formas diferentes em cada cultura.

Deleuze analizando a obra Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, categoriza 4 grandes mundos de signos.

O primeiro mundo é do da mundanidade, ele é repleto de signos, que estão em constante movimento e evolução. O Signo Mundano surge como substituto de um gesto, de uma ação, ou de um pensamento. Na falta de algo objetivo para a razão, a mente interpreta o significado que existe na própria falta de ação e pensamento. É mais ou menos a ideia de que tudo comunica, até mesmo a ausência de comunicação. É um signo que rouba o sentido de algo e que o substitui. São os signos dos estereótipos e até dos pré-conceitos. Nenhum aprendizado é real se não forem ultrapassados.

O segundo mundo de signos é o do Amor. “Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite.” Assim como o marceneiro é sensível aos signos da madeira, o apaixonado é sensível aos signos do ser amado. Enquanto a amizade se nutre da observação e das conversas, o amor se alimenta da interpretação silenciosa desses signos. Quem ama estuda e busca a revelação desses mundos, e quer assim conhecer quem ama. Opostos que se atraem nada mais é do que uma busca por mundos ainda desconhecidos. Fazer essa busca é estar sempre consciente (alguns não) de que estaremos sempre diante do mistério. Diante de mundos que se formaram sem e antes de nós.

Os signos mundanos e do amor dependem da inteligência, ela é quem os decifra, mas somente com a condição de vir depois.

O terceiro mundo de signos é o das Impressões, ou Qualidades Sensíveis. Depois de experimentada a qualidade de um objeto, ela deixa de ser uma propriedade do mesmo e se torna um signo de um objeto novo. Deleuze explica que é como se a qualidade envolvesse e prendesse a alma de um objeto diferente, que ao ser investigada revelar um tipo de essência. Diferente dos signos mundanos, que são vazios, diferente também dos signos do amor, que nos enganam e nos fazem sofrer, os signos das qualidades sensíveis nos trazem uma alegria incomum. Eles não dependem de uma interpretação, ou uma associação de ideias, surgem mais diretamente. São signos da matéria.

E por último, o quarto e mais profundo mundo dos signos é o da Arte. Indo além das impressões e qualidades sensíveis, os signos da arte encontram seus sentidos numa Essência Ideal. São eles que dão sentido estético aos signos das qualidades e impressões. Todos os demais signos convergem para a Arte. Todos os estudos e interpretações de signos, sejam eles mundanos, do amor ou das impressões, transcendem para uma forma de arte. Aprender é atravessar os primeiros mundos para alcançar uma arte. É alcançar essências, que por sua vez é a constituição do Ser.

Proust define essência como uma “diferença última absoluta”. Para ele somente a arte pode oferecer a revelação dessas diferenças.

Tudo que buscamos em vão na vida, numa amizade, ou no amor e não encontramos, somente a Arte pode nos dar.

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