O Cérebro Criativo

O Cérebro Criativo, Shelley Carson, Editora Best Seller.

Eu não lido bem com algumas ideias apenas por serem convencionais, mas às vezes me esqueço de que esse negócio de “ser do contra” também é uma forma de senso comum. Por pensar que a criatividade é algo que não se pode expressar através de processos, eu sempre negligenciei a literatura técnica sobre o assunto, porém acabei dando uma chance para esse livro, apesar de seus viés de auto-ajuda fundamentada em neurociência. Acho que a neurociência está se tornando minha nova obsessão.

Bom, de cara o livro me irrita empurrando a ideia de Zona de Conforto. Irrita pois tenho um conceito completamente oposto do que muitos afirmam. Mas, considerando o fato de que nosso cérebro faz coisas conosco e que nem chegamos a ter consciência, fica mais fácil imaginar que para poupar energia ele se habitue em rotinas. Trata-se de uma zona de conforto mental, ou seja uma forma de utilizar o cérebro que se torna mais comum, ativando mais certas partes do que outras.

Essas formas a autora define como modos cerebrais: Conectar, Razão, Visualizar, Absorver, Transformar, Avaliar e Corrente. Basicamente qualquer ideia, que a pessoa tenha, passa por algumas dessas modalidades. Um questionário no livro avalia em qual modo o leitor mais utiliza, o que se sente mais confortável, então a resposta é óbvia, se você busca uma dinâmica para gerar mais e melhores ideias, você precisa trabalhar as outras modalidades. Sair da zona de conforto.

Livro 1 X 0 Errado.

Eu sou um cara muito modo Visual e Absorver. Ou seja, contemplo as coisas, mas acabo criando de forma um tanto limitada ao que vejo. Minha arte reflete isso muito bem. Eu quero fazer pinturas realistas, caveiras e corações anatomicamente corretos e tal. Mas me falta aquele toque original, único, aquela mistura criativa que Conecta uma ideia com outra e as Transforma.

O modo Absorver é o estado receptivo do cérebro, é ter a mente aberta, é apreciar tudo o que é novo, sem fazer julgamentos. Bebidas alcóolicas são famosas por influenciarem os trabalhos de alguns grandes artistas, justamente pelo fato do álcool desativar a área do cérebro responsável por julgamentos. É claro que a autora não convida ninguém a encher a cara, existem exercícios que auxiliam na absorção de elementos, sem passar por filtros pré-conceituosos como “ah esse ideia não vai dar certo” ou “que ideia mais ridícula”. Alguns exercícios sugeridos são: provar alimentos novos todas semana, apenas para apreciar o sabor de algo diferente, ou então observar o mundo à sua volta e reparar tudo que você não havia parado para notar antes. E também sugere a meditação como exercício para abrir a mente.

O modo Visualizar lida com a memória e com a imaginação, é uma visualização interna. É a criação de hipóteses através de imagens mentais. A autora lembra de pesquisas que comprovam que para certas áreas do cérebro não existem diferenças entre o real e o imaginário. Alguns exercícios, para estimular essa atividade do cérebro, são: imaginar objetos do recinto a sua volta, de olhos fechados; desenhá-los no ar com a ponta dos dedos, criando ícones imaginários; desenhar plantas baixas de casas, apenas de memória e também mapas, com as rotas feitas no dia a dia.

O modo Conectar fala sobre a necessidade de se pensar divergentemente e não convergentemente. Convergente é o pensamento em que você já está familiarizado. Ao lidar com um problema, você acessa suas memórias e encontra as respostas. O cérebro faz uma escolha, que acredita ser a correta. Já o pensamento divergente encontra mais de uma resposta para um mesmo problema, sem saber qual é a correta, pois todas poderiam valer. Você precisa colocar um prego na parede, o convergente pensa “preciso de um martelo!”, o divergente pensa “essa chave inglesa aqui do lado já quebra o meu galho!” Não há uma limitação de ideias imposta por algum tipo de juízo de certo e errado. O modo conectar trata dessas novas possibilidades. Estudos indicam que o bom humor afeta muito esse modo cerebral. Pessoas bem humoradas criam mais possibilidades. Experimente começar um brainstorm contando piadas, para desligar as áreas de inibição. Ironicamente, ao contrário do que muitos profissionais da criatividade pensam, a cafeína faz mal para quem busca pensamentos mais divergentes. Vale lembrar que esses pensamentos não são espontâneos, eles aparecem quando se lida diretamente com um problema do qual se busca uma solução. Exercícios para esse modo cerebral são: escrever listas de novas utilidades para algum objeto comum e exercícios de associação de palavras, onde se começa com uma qualquer e depois se lista tudo o que vier à mente enquanto se pensa na primeira palavra.

O modo Razão lida com o controle consciente do pensamento. É um processamento sequencial de ideias, causa e efeito. Em geral existem dois caminhos para a criatividade, um espontâneo, onde as ideias chegam de repente, como um “eureka” e o caminho deliberado, onde as coisas são planejadas racionalmente, o modo razão é o principal meio de se trilhar por esse caminho. Ele é objetivo, sabe onde quer chegar. Você pode não ter ainda a solução para o problema, mas você sabe como as coisas devem ser sem ele. Os exercícios sugeridos pela autora são de controle consciente do pensamento, onde busca-se evitar certos pensamentos negativos e depois alguns que envolvem um planejamento e processos para serem seguidos, com objetivo de se adquirir algum novo conhecimento dentro de um determinado prazo. Boas dicas de como estudar, qualquer coisa, de forma mais efetiva.

O modo Avaliar, como o nome diz, é quando você direciona seu pensamento de forma mais crítica para o seu ambiente, ou seu trabalho. Em parte do processo criativo você vai precisar deixar um pouco de lado toda aquela absorção e começar a categorizar, provavelmente o que você já raciocinou no modo razão, de forma que filtrando aos poucos você tenha um conteúdo mais objetivo e específico em mãos, ou em mente. A autora traz um pequeno questionário onde você pode colocar sua ideia à prova. Nele pergunta-se sobre a originalidade da ideia, na possibilidade dela ser adaptada, se é útil, se tem valor estético. Respostas negativas lhe fazem perceber que sua ideia pode não ser o que você esperava, e respostas positivas apontam que você está no caminho certo. Mais critérios são apresentados pela autora, auxiliando a se livrar de apegos exagerados à velhas ideias. Uma coisa que achei muito interessante nesse processo, é que nele eu não estou ME julgando, nem minhas habilidades, mas sim as minhas ideias. Acreditar que é você quem está sendo avaliado é prejudicial para futuros processos criativos, então é importante separar quem é você do que é seu trabalho. É sempre mais gratificante fazer algo novo, mesmo que não seja bem feito, do que ser elogiado fazendo sempre a mesma coisa. Nesse capítulo ela dá algumas dicas de como lidar com críticas negativas dos outros.

O modo Transformar lida com sentimentos pessoais, até então o livro só abordava o lado racional do pensamento e ignorava o mundo das emoções. Então a autora traz definições de emoções, colocando-as como gatilho para ações do comportamento. Parecido com o modo visualizar, nesse modo também há criação de hipóteses imaginativas, porém aqui elas não são propositalmente conscientes, aqui você se deixa levar por estados emocionais que brotam de você, muitas vezes sentimentos negativos, como a insatisfação. A autora relata algumas obras famosas criadas na angústia, mostrando como a criatividade surge também como uma forma de expurgo.

O modo Corrente, o último, relata uma forma de agir do cérebro onde ele entra numa espécie de piloto automático. Como exemplos, a autora fala da experiência de dirigir carros e sobre atletas que parecem entrar num transe, onde o corpo executa as atividades mesmo que a mente não esteja exatamente consciente delas. Trata-se de um estágio final do processo, a mente já absorveu elementos do cenário, hipóteses foram imaginadas, processos avaliados e agora lidamos com a execução. Os exercícios abordam técnicas de improvisação e motivação.

Para mim, na prática artística, essas coisas sempre foram um tanto intuitivas. Nunca havia pensado em estruturar meus processos, nem imaginava que eles seguissem algum padrão. De forma bem simples, eu apenas chamava de vontade, ou de inspiração, seguida de um momento de organização de materiais e referências, o que já era suficiente para visualizar o que eu queria, bastava então executar. Mas o processo descrito pela autora encaixa-se perfeitamente na minha rotina. Porém, percebi com o livro o que me faltava, um pouco desse toque pessoal e uma variedade de conexões. Me falta essa mistura. Uma mistura bem pessoal. Acho que nunca a fiz para expor temendo o resultado e a reação de outros. Talvez eu precise ser menos crítico. Ainda menos crítico.


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